Leon Denis
Professor de Filosofia da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo, autor do projeto Arte Suave na escola e co-autor do projeto Mens sana in corpore sano, pioneiro no ensino de Direito Animal e Veganismo em escolas públicas no Brasil.
Membro fundador da Sociedade Vegana.
"Como introduzir o veganismo em sala de aula?"
Essa é a questão que intriga uma grande parcela de docentes do Ensino Fundamental e do Médio após sua adoção do modo de vida vegano.
Tendo sempre como norte a definição e importância desse modo de vida ético para todos os seres vivos do planeta, a pergunta que me intriga sempre é outra: "como não introduzir o veganismo em sala de aula?"
Ao folhear os livros de Ciências do Ensino Fundamental e os de Biologia do Médio vejo o veganismo em todos os capítulos e penso: "Ah, se eu fosse um biólogo". O mesmo acontece ao folhear os livros de Geografia. Que ciência formidável, é possível demolir o especismo, tanto com a geografia física quanto com a humana, em especial a geopolítica. História! E a História? Em todas as culturas, em todas as épocas, a supremacia do antropocentrismo sufocando o legado estrategicamente escondido das vozes dissidentes. Língua Portuguesa, Química, Artes, Educação Física... Filosofia, a disciplina que ministro, essa eu exploro bem.
Acredito que na maioria das vezes a preocupação maior dos docentes veganos não é sobre que material didático usar, porque isso, é "mamão com aveia" (popularmente se diz "mamão com açúcar", mas como não sou simpático ao uso desse doce veneno, fico com a aveia). Pois, mesmo com material não vegano é possível dar uma bela aula sobre os direitos animais.
É visível que o que mais preocupa os docentes veganos é a reação dos colegas de trabalho, da direção da escola e dos pais após o tema ter sido introduzido em aula. Minha experiência particular mostra que qualquer tentativa, a mais sutil que seja de falar de veganismo nas escolas de nível médio será recebida com hostilidade por parte dos outros professores e com represália da direção e dos pais.
Professores e professoras, se vocês são veganos de fato e têm consciência dos "desafios do modo de vida vegano", que magnificamente foram apresentados pela eticista Sônia Felipe no lançamento da Sociedade Vegana, qual o temor? O que lhes falta? Coragem?
Coragem é uma das principais virtudes ensinadas por muitas das artes marciais orientais. Em Jiu-Jítsu, por exemplo, coragem é representada pela "arte de não andar para trás". Na edição 157 da Gracie Magazine há um artigo sobre essa arte de não recuar perante um forte oponente ou obstáculo. Vemos uma foto de um encontro entre um cão husky siberiano e um urso negro numa floresta coberta pela neve. Diante desse hercúleo obstáculo o husky, diferentemente do que muitos de nós faríamos, não recua um passo no seu trajeto. Como o bravo husky defronte o urso negro, o docente vegano deve posicionar-se com uma base sólida diante do gigantismo do mundo escolar especista e não recuar no propósito de educar para o veganismo. Veganismo também é um esporte de combate.
No caminho do husky havia um obstáculo, um grande obstáculo. Na longa jornada do educador vegano também sempre haverá grandes obstáculos. Enfrentar ou recuar? Seguir ou andar para trás?
Não defendo o confronto direto com o corpo burocrático, docentes e pais especistas. Não recuar não é bater o pé contra a oposição aberta ou dissimulada deles, mas não recuar no objetivo de passar o veganismo adiante.
Em outra arte marcial, o Judô, aprendemos a usar a força do adversário contra ele mesmo. Quando digo que mesmo com material didático não vegano é possível dar uma boa aula sobre os direitos animais, falo fundamentado nesse princípio judoca. Como ainda não dispomos de livros didáticos de todas as disciplinas revisadas de modo a adequar seu conteúdo ao veganismo, retirando-lhes todo o conteúdo especista, cabe ao educador vegano usar o especismo dessa disciplina contra ela mesma. Como? Mostrando a gritante contradição e incoerência do discurso e afirmações especistas. O antropocentrismo não se sustenta lógica, biológica e filosoficamente.
O educador vegano não pode recuar diante da repressão do corpo burocrático escolar, representante dos pais e dos docentes esquizofrênicos morais. Represálias, coações e ameaças surgirão. No entanto, se o objetivo é educar para por fim ao biocidio defendido pela incoerente moral tradicional. O educador deve começar a praticar "a arte de não andar para trás". Comece com o que é fundamental: muito conhecimento sobre a filosofia dos direitos animais. O conhecimento traz coragem e segurança. Educar para o veganismo é ter coragem de desfazer primeiro as próprias pregas, rugas e dobras morais que a tradição nos legou. Sócrates chamaria de "conhece-te a ti mesmo"; depois é só mostrar maieuticamente as crianças e adolescentes o caminho do modo de vida eticamente refletido.
Acredito que a pergunta inicial sobre como introduzir o veganismo em sala de aula, foi respondida.
O QUE É EDUCAÇÃO VEGANA?
Nosso sistema de ensino modifica, conduz a criança e o adolescente no processo de assimilação de nossa herança cultural, nutrindo-os com aquilo que “acham” que é bom transmitir porque faz parte da tradição.
Alguns valores fazem parte do corpo de conhecimentos necessários para se formar um cidadão crítico e autônomo, os mais citados são: justiça e igualdade. Esse é o objetivo de uma grande porção da literatura pedagógica nas últimas duas décadas, formar cidadãos autônomos e críticos, guiados pelos ideais de justiça e igualdade. O que nossos deuses do campo pedagógico, os docentes (em alguns Estados , verdadeiros bóias-frias da educação) e a quase totalidade dos pais não percebem é o perigo que se corre ao ensinar/transmitir um conceito de justiça e de igualdade restrito aos adultos da espécie humana dotados de razão, consciência de si e linguagem.
É para expandir o ideal de justiça e igualdade para além do “reino dos fins”, e formar cidadãos verdadeiramente críticos e autônomos no sentido grego dos termos que nasce a educação vegana.
A educação vegana é a ruptura com um ensino transmissor de um ideal de justiça restrito e excludente, de um ideal de igualdade fechado nos possuidores da posse plena da razão e linguagem como apregoado pela filosofia moral tradicional.
Educação vegana é o ensino do respeito a todos os animais sencientes. É o ensino de um modo de vida ético cujo princípio é a filosofia dos direitos animais, um modo de vida que reconhece a inclusão dos animais não-humanos na comunidade moral, única forma para que seus interesses sejam respeitados.
Educar para o veganismo é levar o individuo humano do estado de heteronomia moral (ou seja, da lei externa a si, criada há séculos pelos exploradores dos não-humanos) para o de autonomia moral, de coerência ética.
Educação vegana é formação de uma nova consciência, de um novo olhar e interação com o mundo que nos circunda. É um ensino pautado no respeito aos interesses dos não-humanos em não terem suas vidas abreviadas, em não perderem sua “liberdade ou autonomia para buscar livremente os meios para sua sobrevivência,” em não serem objetos de propriedade dos humanos. Educar para o veganismo é formar uma nova geração livre do especismo, consciente de que cada animal não-humano é um indivíduo e que possui valor em si mesmo, independente da espécie que pertence.
Diferente de várias pedagogias anti-racismo e anti-sexismo que no mundo prático infelizmente não tem suas teses aplicadas como deveriam, a pedagogia anti-especismo da educação vegana é vivenciada diariamente pelos representantes desse novo paradigma educacional. É uma práxis vegana. Quem se propõe educar para o veganismo, vive o veganismo.
VEGANISMO
Veganismo é o modo de vida que busca eliminar toda e qualquer forma de exploração animal, não apenas na alimentação, como também no vestuário, no teste e na composição de produtos diversos, no trabalho, no entretenimento e no comércio; veganos opõem-se, obviamente, à caça e à pesca, ao uso de animais em rituais religiosos, bem como qualquer outro uso que se faça de animais.
Veganos são, portanto, vegetarianos que excluem animais e derivados não apenas de sua dieta, mas também de outros aspectos de suas vidas. Esse modo de vida fundamenta-se ideologicamente no respeito aos direitos animais e pode ser praticado por pessoas de qualquer credo, etnia, gênero ou preferência sexual. O veganismo não tem relação com crenças políticas nem com preferências musicais, nem deve ser associado a determinada cultura. Trata-se, portanto, de uma prática universal.
Embora a abstenção de produtos e serviços derivados da exploração animal pareça resultar em um modo de vida bastante restritivo, a prática do veganismo é relativamente simples e fácil de praticar, em especialmente nos grandes centros urbanos.
Veganos são, primeiramente, vegetarianos. Isso significa que veganos jamais devem consumir alimentos que contenham a carne de nenhum animal (inclusive aves, peixes e invertebrados), ovos, leite, gelatina, mel, cochonilha, ou outros ingredientes derivados de animais.
A dificuldade maior em não consumir esses produtos encontra-se no fato de que a maior parte dos alimentos industrializados possui um mais desses produtos em sua composição. No entanto, é importante que alimentos que possuam tais ingredientes, ainda que em pequenas quantidades, sejam boicotados, optando-se por produtos que não contenham tais ingredientes em sua composição.
Muitos vegetarianos optam por não consumir alimentos industrializados para desta forma evitar o consumo de alimentos cuja composição não seja bem conhecida. Tal escolha é uma opção pessoal, não sendo tal prática inerente ao veganismo. Desde que isentos de ingredientes de origem animal, alimentos industrializados podem ser consumidos por vegetarianos.
Veganos devem, sempre que possível, evitar a utilização de produtos testados em animais ou que possuam ingredientes de origem animal em sua composição. A experimentação animal é uma das formas mais cruéis de exploração animal, estando no entanto bastante difundida em especial nos produtos farmacêuticos, cosméticos e de higiene. Há, porém, diversas marcas e linhas de produtos que não utilizam animais em sua composição e que não testam em animais.
Veganos também devem dar atenção ao vestuário. Sapatos e acessórios de couro, peles, seda, lã, penas e plumas são todos produtos oriundos da exploração animal. Há diversas opções no mercado que substituem com vantagens tais itens e não há como justificar a necessidade de continuar tal uso.
De igual maneira, veganos jamais devem entreter-se às custas de animais. Animais não estão nos zoológicos e aquários por opção; eles não realizam performances em circos porque assim o querem, nem pulam em rodeios porque consideram isso divertido. É óbvio que esses animais são coagidos a participar desses “espetáculos” torpes.
Não há como considerar touradas, corridas de animais, rinhas, vaquejadas, cavalhadas, a caça, a pesca e outras formas de tortura como sendo esportes ou manifestações culturais, são, isso sim, demonstrações grosseiras e cruéis da dominação humana sobre outras espécies.
Embora veganos possam tutelar animais, deve haver toda uma ética em relação à aquisição dos mesmos. Animais jamais devem ser adquiridos mediante transação comercial, permuta ou escambo, nem devem provir de ninhadas produzidas intencionalmente com o objetivo de lhe providenciar filhotes. Salvo algumas exceções, veganos geralmente adotam animais abandonados, preferindo animais sem raça definida e com menores chances de serem adotados por outros tutores.
Veganos devem opor-se, igualmente, a todas as outras formas de exploração animal.
Em um certo sentido todas as pessoas do mundo são radicais. A maioria de nós é radicalmente contra a violência, radicalmente contra o abuso infantil, a injustiça . . . Não há nada de errado em ser radical em questões que julgamos justas.
O contrário de ser radical é ser moderado. Mas será que é sempre certo sermos moderados? Que imagem devemos ter de uma pessoa que tenha uma visão permissiva em relação a questões como a escravidão, o estupro e tantas outras?
Sim, veganos são radicais porque não aceitam de forma alguma a exploração animal, assim como não aceitam de forma alguma a exploração humana. Não aceitar significa fazer algo a respeito, mesmo que isso signifique certo desconforto em relação ao modo de vida que estamos acostumados a ter.
De que forma o veganismo atua em defesa dos animais?
Todo sistema produtivo está sujeito às leis de mercado, inclusive os que envolvem a exploração animal. A cadeia produtiva que envolve a exploração animal inclui o produtor ou criador, o transportador, o processador ou abatedor, o distribuidor, o comerciante e o consumidor. Todos esses são elos importantes da cadeia de exploração animal e a falta de qualquer desses elos compromete todo o funcionamento do sistema.
Pode-se dizer que uma pessoa que participe dessa cadeia apenas como consumidor é tão responsável pela morte do animal como, por exemplo, o abatedor, pois se trata de um sistema de exploração cíclico e interdependente. Como em qualquer crime há a mão que desfere o golpe, mas tão responsáveis quanto é a mão que paga por isso. Se ninguém comprasse carne, leite e ovos não haveria quem os vendesse. Não haveria interesse por sua produção, transporte e comercialização.
A proposta principal do veganismo consiste em atuar como uma força de mercado. Veganos efetivamente impedem que mais animais continuem a ser explorados quando boicotam produtos de origem animal, que tenham sido testados em animais ou que de alguma forma derivem ou resultem de exploração animal.
E maior será essa força de mercado quanto maior seja o número de veganos efetivamente atuando nesse boicote. Por esse motivo a necessidade de divulgação do veganismo para o maior número de pessoas possível. O objetivo do veganismo é pôr fim à exploração animal.
O que eu posso fazer?
O primeiro passo para trilharmos o caminho do veganismo e dos direitos animais é tornarmos a nós mesmos veganos, adotando esse modo de vida. Em muitos lugares encontraremos pessoas que dizem respeitar os direitos animais, mas se elas mesmas não se tornaram veganas elas não podem dizer defender os direitos animais. O veganismo é o primeiro e não o último passo a ser dado.
Esse importante passo só pode ser dado concomitante com a educação. Apenas educando-nos podemos adotar um veganismo consciente. O veganismo sem consciência nada mais é do que uma fase efêmera da vida. A educação também propicia que nos pronunciemos com propriedade sobre determinado assunto.
O segundo passo é tornamo-nos difusores desse modo de vida. O veganismo deve ser sempre difundido por meio da educação e jamais por campanhas violentas, coercivas ou de mal gosto. As informações transmitidas ao público devem ser sempre confiáveis e bem fundamentadas, o veganismo deve ser algo atraente e não repulsivo, deve ser abrangente e não limitador.
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